O mercado imobiliário português e global atravessa uma profunda mudança de paradigma. Se, no passado, a localização e a estética dominavam em exclusivo as decisões de investimento, hoje, a sustentabilidade e a eficiência material assumem um papel igualmente crítico. Num mundo onde o setor da construção civil e do imobiliário responde por uma fatia imensa da pegada ecológica mundial, a transição de um modelo linear e intensivo em carbono para uma economia de circularidade tornou-se um imperativo não apenas ambiental, mas estritamente financeiro.
Os promotores, investidores e consultores estão a descobrir que a seleção de materiais de construção afeta diretamente a avaliação de imóveis, a redução dos custos operacionais e a atratividade perante um mercado cada vez mais exigente. Em centros urbanos de alta procura, como é o caso do investimento imobiliário Lisboa ou do vibrante mercado de arrendamento Porto, os ativos sustentáveis deixaram de ser um nicho para se tornarem o padrão exigido por inquilinos premium e fundos institucionais.
O Peso do Carbono no Setor Imobiliário: Uma Urgência Global
Para compreendermos a revolução dos materiais, é essencial olharmos para os dados macroeconómicos. Atualmente, os edifícios são responsáveis por cerca de 42% das emissões globais. Destas emissões, a vasta maioria divide-se em duas categorias fundamentais para o ciclo de vida do ativo:
- Aproximadamente 64% das emissões dos edifícios provêm das operações diárias (carbono operacional), como o aquecimento, arrefecimento e iluminação.
- Os restantes 36% são provenientes do carbono incorporado (embodied carbon), ou seja, as emissões associadas à extração, fabrico, transporte e montagem dos materiais de construção.
A grande alteração nas tendências do mercado revela que, à medida que a eficiência energética operacional melhora, o peso do carbono incorporado torna-se mais evidente. Estima-se que, até 2035, as emissões de carbono incorporado possam representar mais de metade do total das emissões provenientes do ambiente construído. Por esta razão, os promotores imobiliários precisam de otimizar o uso de materiais e minimizar o desperdício para alcançarem a verdadeira eficiência.
A Economia Circular na Construção: Redefinir o Ciclo de Vida
A economia circular no imobiliário transcende a simples reciclagem. Trata-se de repensar o design, a construção e a demolição de um edifício como um ecossistema fechado, onde os edifícios funcionam como verdadeiros “bancos de materiais”. Em Portugal, dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que os custos de construção nova continuam a pressionar as margens dos promotores, tornando a reutilização e a circularidade soluções financeiramente estratégicas.
A adoção destas práticas baseia-se em princípios fundamentais:
- Design para a Desmontagem (DfD): Estruturar edifícios de forma que os seus componentes possam ser facilmente separados e reutilizados no fim da vida útil do ativo, reduzindo assim o impacto do carbono incorporado.
- Reutilização Adaptativa: Em vez de demolir, optar pela reabilitação profunda de edifícios existentes. O retrofit de edifícios evita o impacto massivo de carbono incorporado associado a novas construções.
- Materiais de Baixo Impacto: Priorizar materiais sustentáveis e princípios de economia circular desde a fase de conceção, frequentemente validando as decisões de design através de análises de ciclo de vida.
Materiais Sustentáveis que Impulsionam a Avaliação de Imóveis
A substituição de materiais tradicionais por alternativas ecológicas está a moldar o futuro da construção. Estes materiais não só garantem o cumprimento de regulamentações cada vez mais rigorosas — como a Taxonomia da UE e a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) —, como reduzem os riscos de transição climática. Novos regulamentos ambientais podem exigir a modernização de edifícios ineficientes ou a utilização de materiais de construção mais “verdes”.
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Madeira Lamelada Cruzada (CLT)
Ao contrário do betão tradicional, as estruturas de madeira lamelada funcionam como um sumidouro de carbono a longo prazo. Pela sua leveza, rapidez de montagem e apelo estético, o CLT é cada vez mais a escolha de eleição para o desenvolvimento de edifícios de escritórios de classe A.
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Betão e Aço de Baixo Carbono
O betão “verde” utiliza escórias industriais ou cinzas volantes em substituição do cimento Portland tradicional, reduzindo drasticamente as emissões. Da mesma forma, a utilização de aço reciclado alimentado por energia renovável está a ganhar tração, permitindo a construção de arranha-céus que cumprem rigorosos critérios ESG (Environmental, Social, and Governance).
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Isolamentos Naturais e Biomateriais
Em Portugal, a cortiça (da qual o país é líder mundial) e o cânhamo estão a assumir posições de destaque como isolantes térmicos e acústicos. A excelência no isolamento traduz-se numa eficiência energética ímpar, diminuindo os custos de climatização, um fator que aumenta a rentabilidade líquida do imóvel e agrada diretamente ao mercado arrendatário.
O Impacto dos Materiais na Avaliação de Ativos
O valor de um ativo imobiliário não é hoje ditado apenas pelas suas yields históricas, mas pela sua resiliência futura. À medida que as exigências do mercado evoluem, os edifícios energeticamente ineficientes e com grande pegada de carbono correm o risco de perder valor de mercado. É aqui que entra o papel crucial da avaliação de imóveis.
Empresas e consultoras de renome na avaliação de ativos e risco imobiliário, como a PVW Tinsa e a Accumin, estão a incorporar métricas ESG rigorosas nos seus modelos de avaliação. Em conformidade com metodologias de referência apontadas pela literatura global, a integração do ESG na avaliação pode ser compreendida através de três abordagens principais:
Abordagem Aditiva
Neste modelo, os critérios de sustentabilidade são isolados e quantificados. As poupanças operacionais geradas por materiais sustentáveis (como redução de faturas de energia, água e gestão de resíduos) são calculadas e adicionadas diretamente aos fluxos de caixa (cash flows) do edifício. Adicionalmente, as taxas de desconto utilizadas podem ser ajustadas (com prémios ou penalizações) conforme as características de sustentabilidade da propriedade; edifícios verdes são vistos como investimentos de menor risco. Contudo, esta abordagem exige cautela para evitar a dupla contagem de fatores qualitativos.
Abordagem Integrativa
Considerada mais robusta para portefólios complexos, esta metodologia incorpora todas as variáveis ESG diretamente na projeção orgânica do Discounted Cash Flow (DCF).
- Rendas e Vacancy: O uso de materiais que melhoram a qualidade do ar interior e o conforto térmico gera maior satisfação nos inquilinos, justificando rendas premium e reduzindo os períodos de vacancy.
- OPEX (Custos Operacionais): Materiais de alta durabilidade e baixo impacto diminuem drasticamente os custos de manutenção e limpeza a longo prazo.
- Taxa de Capitalização (Exit Yield): Propriedades construídas de forma circular e sustentável possuem maior liquidez, atraindo investidores institucionais e originando taxas de saída mais atrativas e avaliações mais elevadas.
Análise de Cenários
A adoção de análises de cenários perante o risco climático (físico e de transição) é importante para proteger o valor do ativo a longo prazo. O desenvolvimento de novos materiais sustentáveis poderá obrigar edifícios que não possuam estes sistemas a atualizarem-se para não perderem competitividade comercial.
O Mercado em Portugal: Oportunidades no Eixo Lisboa-Porto
Segundo dados cruzados do Confidencial Imobiliário, a resiliência dos preços em Portugal continua a atrair capital estrangeiro. No entanto, o perfil deste investimento imobiliário Lisboa está a alterar-se. Investidores institucionais e Family Offices recusam-se cada vez mais a adquirir os chamados stranded assets (ativos obsoletos ambientalmente).
No mercado de arrendamento Porto, onde a reabilitação urbana tem sido o motor do desenvolvimento da última década, a reutilização adaptativa de edifícios antigos é uma prática de ouro. A preservação de fachadas históricas, combinada com interiores revestidos a materiais sustentáveis e de alta eficiência, tem gerado rentabilidades acima da média da zona Euro, aliando o carisma patrimonial português à vanguarda da sustentabilidade global.
Design Generativo e Certificações “Green”
Para implementar esta circularidade de materiais com sucesso, o setor está a recorrer à tecnologia avançada. Ferramentas de design generativo, suportadas por inteligência artificial e aprendizagem automática, permitem prever e otimizar com exatidão a utilização de recursos desde o primeiro dia.
- Ao simular inúmeros cenários arquitetónicos, os promotores podem prever os impactos financeiros de diferentes escolhas de design, como a inclusão de sistemas energeticamente eficientes ou o recurso a fontes de energia renovável.
- Estas ferramentas garantem que os projetos atingem metas de sustentabilidade, minimizando imprevistos, desperdícios e erros no local de obra, garantindo um forte retorno do investimento.
Por fim, o uso efetivo de materiais circulares é o passaporte direto para a obtenção de prestigiadas certificações imobiliárias ESG, como o LEED, BREEAM ou, em alguns contextos, o BELS. Estas certificações não são meros diplomas decorativos; tornaram-se o padrão de facto para atestar a qualidade e a superioridade económica do ativo imobiliário. Estudos comprovam que a obtenção de certificação imobiliária ESG resulta em vantagens económicas claras, como o incremento no valor do ativo e a possibilidade de praticar rendas mais elevadas.
Conclusão
A transição da construção intensiva em carbono para uma abordagem de economia circular deixou de ser uma tendência académica para se estabelecer como a fundação do novo modelo financeiro do setor imobiliário. Os materiais sustentáveis não estão apenas a erguer paredes; estão a erguer barreiras contra o risco regulatório e a obsolescência financeira.
Para os profissionais que lidam diariamente com a avaliação de imóveis, a integração transparente do ESG — avaliando a qualidade, a durabilidade e a eficiência carbónica dos materiais — é o novo critério de ouro. Promotores e investidores em Portugal que adotem rapidamente a circularidade serão aqueles que definirão os tetos de rentabilidade nos próximos anos. A sustentabilidade já não custa dinheiro; a falta dela é que desvaloriza o capital.





